A gestação de uma mãe

Sempre que alguém se depara com o meu barrigão de 9 meses (38 semanas), a pergunta que não quer calar é: – E para quando é seu bebê?

E eu prontamente respondo: para quando ele resolver vir!


Pensando melhor, essa resposta talvez não esteja totalmente adequada. A cada dia que passa, percebo que a preparação para o parto, com sua rotina incessante de exames e condutas médicas (o bebê está bem?), rotina de yoga, pilates etc.. (o corpo está bem?), leituras, “conselhos” mil e estoque de fraldas como resultado de um divertido chá de bebê (a casa e as roupinhas estão em ordem?) deixam de lado uma parte importante: o parto da mãe.

Sendo assim, um parto natural talvez aconteça quando nós dois estivermos prontos, em comum acordo. Eu não estou no comando. Você não decide sozinho. Dançaremos juntos o nosso nascimento.


Cada trimestre de gestação não define apenas como está o desenvolvimento do feto e as alterações hormonais e fisiológicas inerentes – embora sejam essas as informações mais prontamente disponíveis.

Cada trimestre é uma nova etapa na formação de uma mãe que está para nascer, e ela tem cerca de 40 semanas de preparo para isso.


Mesmo se o sonho dessa mulher sempre tenha sido ser mãe, ou se isso nunca foi uma prioridade ou uma graaande vontade (mais o meu caso), ambas enfrentarão igualmente um processo novo, intenso de transformação e renovação, assim como o filho que carregam em seu ventre. Mas quem se prepara para o seu próprio parto?


Enquanto você, meu bebê, se nutre e cresce através do que meu corpo, eu me nutro e cresço através de leituras, relatos e histórias que busco ou ouço gratuitamente. Talvez a coca que eu bebi não tenha sido o alimento mais saudável para você. Talvez aquela dica que fulana me deu não tenha acrescentado em nada – quiçá tenha sido levemente tóxica. Mas tudo bem… A Vida que brota em nós é incessante, rítmica e poderosa.  Eu me revirando aqui, você se encaixando aí.


Sua existência só foi possível com a abertura, recepção e acolhimento no meu útero de um espermatozóide, diante da morte de milhares de outras possibilidades de vida.

Minha existência como mãe só será possível com a abertura, recepção e acolhimento desse novo papel, diante da morte de milhares de outras possibilidades de vida.

Estou disposta a morrer?

Eis o luto que toda mulher enfrenta no Primeiro Trimestre, abraçada pela oscilação doida dos hormônios, pimenta que torna tudo mais intenso e ardido!

O horizonte se mostra repleto de mudanças, de desconforto, de dúvidas, de medo, raiva, culpa, esperança, loucura, abstinência, solidão, amor, confusão. Tudo interno, às escondidas. Ninguém consegue te ver aí dentro. Ninguém consegue me ver por dentro. Sabemos nos esconder.

Você, proto-filho. Eu, proto-mãe. Meu amor ainda é um conjunto de minúsculas células que se multiplicam, na promessa de crescerem, tomarem corpo e vibrarem vida.

Wait… estou falando de você ou de mim?


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Pensando bem, as pequenas mortes do dia a dia anunciam a possibilidade de uma nova rotina, mais saudável e conectada com facetas minhas antes desconhecidas! Minha nova vida começa a ser vislumbrada, meus hormônios me dão uma trégua e meu corpo é invadido por uma energia única! O amor começa a tomar forma. Eu começo a compreender tudo que tenho a ganhar com você. O Segundo Trimestre me abraça com entusiasmo, curiosidade, leveza e tesão!

Você começa a ganhar forma, mini pedacinho de gente. A ultrassonografia mostra um corpinho com braços, pernas, ossos e soluço. A formação dos órgãos internos está a todo vapor! Você, agora menino, se mexe com entusiasmo, curiosidade, leveza e emoção!


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Tudo cresce, tudo se expande. Aumentam os exames, as responsabilidades, as perguntas, os itens a serem providenciados, a curiosidade e o carinho das pessoas.

Minha barriga cresce a cada dia. Aliás, tudo cresce ou incha: barriga, braço, coxas, ppka, dedos das mãos, pé, ponta do nariz.

Minha conexão com você aumenta. O ritmo da vida, lentifica. Estamos entrando na reta final, e eu já me percebo tão diferente.

“A gravidez torna a musculatura mais flexível e as ideias menos rígidas” (Quando o corpo consente, 2013)

Somos tão um! O peso da barriga e os 10kg adquiridos antagonizam a sutileza do amor que brota do meu ventre e quer abraçar o mundo!


O nono mês é um mistério a parte. O desconforto físico é apaziguado pelo equilíbrio da minha alma. Por mais que haja uma certa ansiedade e curiosidade para vê-lo, senti-lo e conhecê-lo, algo em mim me enche de coragem e serenidade… E também medo e aflição..

Nosso espaço está cada vez mais apertado, estreito, exigindo a morte de um processo para que algo novo possa surgir. Estamos nos preparativos finais.. Eu aqui disposta a deixar de lado um histórico negativo de desamparo e dor para poder te abraçar e me tornar aquela que ampara e que ama. Você aí disposto a largar um mundo protegido e a nutrição constante da placenta, para aprender a respirar sozinho e começar a escrever a sua própria história de vida.

Estamos tão frágeis.. mas ao mesmo tempo temos toda a força que move o mundo e gera vida…
Tic tac.

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Arte de Amy Swagman.