O medo do Feminino por excelência

Estava aqui pensando… (é, ando bem pensativa nos últimos dias……………….semanasmesesenfim)

Impressionante como tudo que gira em torno do Feminino gera polêmica, é tabu, toca todo mundo e, exatamente por ser tabu, gera desconforto.

Com a maternidade eu comecei a ter uma dimensão maior dessa situação, justamente por sentir na pele esse movimento e, participando de grupos exclusivamente femininos (de amamentação e de mães empreendedoras), as dezenas de relatos que leio POR DIA são de arrepiar.

E o que mais me assusta: é apenas em grupos fechados que as mulheres se abrem, desabafam e falam sobre assuntos essencialmente femininos.

Que a sexualidade feminina (e a ousadia da mulher em sentir prazer e buscar pelo prazer) é polêmica, subjugada, difamada etc etc não é novidade e é a pauta que mais ganha espaço nos meios de “informação” e “comunicação”. Mulher que sente e busca prazer é puta safada em nossa sociedade, e todo mundo fala sobre isso, sabe disso, critica isso, defende isso, vai as ruas, escreve blog, chora cozamiga enquanto come brigadeiro e acessa o EGO.
Quem aqui nunca discutiu isso na mesa de um bar que atire o primeiro shot.

Porém, o que mais me assusta nem é isso. Sério. Preguiça dessa discussão.

O que mais me assusta são os temas tão tabus, mas tão tabus que ninguém fala sobre o assunto e a gente nem sabe a dimensão deles.

Eu mesma só fui ter acesso a esses temas engravidando.

Vou citar alguns exemplos de temas tabu envolvendo a maternidade.. Pense que CADA UM deles renderia um post a parte.. É, dá pra escrever um livro.

Gestação – e todas as alterações enlouquecedoras do processo, o desconforto, o pavor, a raiva, o medo, a beleza e estranhamento de ter um ser humano se mexendo dentro de vc, a solidão inerente, a vulnerabilidade que parece que te engole, as dores, as agressões e as gentilezas, a barriga que é pública (todo mundo toca) o surgimento de um amor novo, o enjoo, a fome, os gases, o xixi que vaza, o corrimento esquisito, o pé gigante, a libido que diminui-aumenta-diminui-desaparece, os palpites não solicitados, o milagre que te acompanha diariamente, as manchas no rosto, a linha escura que surge verticalmente atravessando sua barriga (dafuq?), o umbigo que parece explodir, a ligação emocional profunda com o bebezinho, a criatividade e vontade de mudança, a falta de atenção e de memória, os exames invasivos, etc etc etc…

Parto – os “guetos” envolvendo o parto natural X cesárea (se quer parto natural é corajosa ou louca, se quer césarea é moderna antenada ou “não é mãe de verdade”  — sério, tem gente que defende isso), os diferentes tipos de parto, casas de parto, equipes de parto, concepções de parto, a violência assustadoramente comum que as mulheres sofrem das equipes médicas durante o parto, os procedimentos-padrão que existem até hoje sem fundamento científico nenhum e que traumatizam mães e bebês (se não traumatizam, os jogam em um isolamento afetivo pra lá de dolorido), o medo do parto natural/normal “arregaçar” a vagina, o períneo e os órgãos internos, a recuperação FELADAPUTA que é o pós operatório de uma cesárea (sério, ninguém fala sobre isso e é fodas), afinal, a cesárea é sim uma cirurgia grande e que deixa sequelas. A dor da cicatriz meses depois. A vergonha de se expor. O corpo que demora para voltar ao normal, a cobrança para esse corpo voltar ao normal (o que é normal??). etc etc etc

Amamentação: vish.. vamos lá… o medo de amamentar, a curiosidade em amamentar, o seio rachado, sangrando, mastite (inflama, sabia?), o leite empedrado, o mito do leito fraco, a doação sobre-humana que é amamentar de acordo com as necessidades do bebê (e não as necessidades da mãe), as aulas para saber dar de mamar (porque se o bebê não pega direito o peito, fodeu), descobrir que não é um processo tão natural e fácil, do tipo pegou o baby, sacou o peito e pronto, os pediatras vendidos para a Nestlé querendo enfiar leite artificial muitas vezes sem necessidade, os adoradores de mamadeira, os odiadores de mamadeira, a DESINFORMAÇÃO total sobre a importância da amamentação e o impacto disso, o preconceito e ódio voltado às mulheres que amamentam em público, a defesa para poder amamentar em público, o seio inchado, o seio murcho, o seio caindooo, o seio vazando, as estrias, os aspectos psicológicos que ajudam ou travam a amamentacao, o bebê mamando calmo, o bebê mamando revoltado, o leite regurgitado que fede muito, os palpites, cobranças e críticas dos familiares.. etc etc ETCCC

Sexualidade da mulher que agora também é mãe: nossa, aí é pecado mortal imaginar isso.. Mãe não transa, né?

A dicotomia entre mãe (objeto sagrado, puro e sem desejos mundanos cof cof) e a mulher (que deseja, geme, provoca, quer ser seduzida, que arde), o medo da primeira relação pós parto, a dor da primeira relação pós parto, a neurose envolvendo agora a dupla função do seio, a cobrança masculina, a cobranca feminina, a libido que some, a libido que nao some, a vergonha do corpo, a exaustão, o silêncio que invade o casal, o silêncio que cerca e oprime a mulher  -mãe solteira, o ciúme do marido, o ciúme do filho, o ciúme da mãe, o medo de começar o sexo, o medo de negar o sexo, a descoberta de uma nova sexualidade, a criação de uma nova cumplicidade, o medo de uma nova gravidez… etc ETC ETC

Está achando o texto longo? Eu também… Sabe o pior? Nem posso dizer que isso é um resumo, pq estou deixando de fora muita, muita coisa.

Ah Nina, mas porque pessoas sem filhos teriam que discutir sobre isso?

Não “tem que” discutir nada. Mas se você observar com carinho e atenção, todo mundo, principalmente os que nao tem filhos, tem opiniões sobre todos esses temas. Inclusive eu também era assim.  A gente discute sim, sem de fato discutir. Percebe o paradoxo?

É comum emitir opiniões geralmente “rasas”, que estão longe de refletir o que realmente acontece e que deixa as mulheres ainda mais isoladas, nao só das outras pessoas mas, principalmente, delas mesmas.

Como eu li esses dias na minha timeline: maternidade é a solidão mais bem acompanhada que eu conheço.

É uma pena que seja assim para muitas, muitas mulheres.

Porque, quando bem direcionada, acolhida e psicologicamente trabalhada, a maternidade é a experiência mais reveladora, emocionante, difícil e libertadora que conheço.

Mas, se tida como um tabu, se não conversada, questionada e aprofundada, pode virar uma experiência muito dolorida, transformada em uma luta/brigas diárias e que muitas vezes é sentida como uma prisão.

E mesmo assim, em muitos lares e com mulheres aos pedaços, o amor ainda vence.

Mas precisa de tanto sofrimento, esforço e julgamento?

Precisamos ainda ter tanto medo do Feminino?

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