Relato de sessão: competência ou incompetência?

É muito comum me deparar na prática clínica com inúmeros pensamentos automáticos negativos relacionados a competência. Na última semana tive uma sessão muito interessante com um paciente (que me autorizou compartilhar aqui o nosso encontro) que se sentia incapaz toda vez que não conseguia dar uma resposta quando lhe solicitavam alguma informação em seu novo emprego. Ele logo acreditava, de forma automática, claro, que sua falta de conhecimento nas situações específicas eram uma prova de sua incompetência profissional. idiota

Trabalhamos em dois grandes eixos: o conceito de competência e a possibilidade de encontrarmos outras explicações válidas para o fato dele não saber responder alguma pergunta no novo cargo recentemente assumido.

Afinal, o que é competência?

Costumamos pensar que competência é um estado de excelência, um lugar a ser alcançado e mantido. Alguns acabam acreditando que é um estado praticamente inato, a pessoa “nasce” competente. Outros avaliam que é necessário desenvolvê-la, mas ainda acreditam que é um lugar a ser alcançado, estanque, delimitado. E o mais importante: ou você é competente, ou você é incompetente.

Temos aqui uma visão 8 ou 80, dicotômica, maniqueísta da questão: ou alguém é 100% competente em suas ações, ou é incompetente. Não tem meio termo: é ou não é.

Vocês conseguem avaliar o perigo dessa definição?

Se eu defino competência como um substantivo (é ou não é), toda vez que me deparar com alguma fraqueza, dúvida ou até mesmo um erro, eu logo vou me definir como sendo intrinsecamente incompetente. Meu ânimo vai diminuir. Posso ficar  desmotivado, tristonho ou muito ansioso. Com esse tipo de emoção, meu desempenho geralmente é prejudicado, confirmando assim a crença inicial: sou incompetente! Entramos em um círculo vicioso difícil de sair, se não reavaliarmos como estamos definindo “competência”.

Ser competente não é ser perfeito, no sentido utópico da palavra.

Pense em alguém que você considera extremamente habilidoso no que faz, alguém realmente competente. Essa pessoa nunca erra? Não tem momentos de dúvida? Nunca tomou uma atitude na qual se arrependeu depois?

É claro que sim.

Mas, mesmo assim, você continua qualificando-a como competente. Porquê?

Como diria esse mesmo paciente, no final da sessão: Hmmm… agora entendo que competência é um processo!

Sim, um processo. É a própria caminhada, não o estado final, bruto. Competência está nas atitudes que você toma no dia a dia.

Caiu? Se tiver que tomar uma atitude competente, o que você faria?

Caiu? Se tiver que tomar uma atitude competente, o que você faria?

Ser competente não te torna invulnerável a erros e tropeços. Não fará com que todas as portas se abram magicamente no mundo. Ser competente é um conjunto de atitudes demonstradas diante dos acertos e dos fracassos, pois compreende-se que esse é o processo inerentemente humano.

Portanto, ao se deparar com uma situação de vulnerabilidade, pense: o que seria uma atitude competente nessa situação? O que seria uma atitude que gera incompetência? A partir dessa reflexão, você poderá tomar uma decisão mais confiante e tranquila. E crescer com isso.

 

Ah, e o paciente? 

Ele conseguiu gerar umas 5 explicações alternativas – e mais “realistas” à situação que ativou todos esses pensamentos, e tem como tarefa de casa avaliar situações que demonstrem atitudes de competência. Saiu mais motivado para enfrentar o trabalho, acreditando que é possível sim que ele seja mais competente do que estava achando. 

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12 comentários sobre “Relato de sessão: competência ou incompetência?

  1. Ex-aluno disse:

    Muito bom esse texto, me fez pensar e mudar a minha visão não só na escola e no trabalho mas sobre a competência em vários aspectos e diferentes momentos.

  2. Ana disse:

    Eu sempre associei competência com inteligência. Logo, sempre que eu fazia algo errado, mais demorado que os outros, me sentia incompetente e burra. Por mais que me esforçe sempre me sinto menos inteligente e competente que os outros.

    Gostei muito do texto , Nina.

    • Essa é uma comparação delicada, talvez porque o conceito de inteligência é bem complexo. Eu posso ser muito inteligente mas ainda não ter desenvolvido minha competência em determinada área, pois para tal outras habilidades, além de inteligência, são necessárias.
      Outras vezes eu posso demonstrar competência em executar determinada tarefa que não exige muito da minha inteligência. Como são conceitos próximos, é muito comum a confusão.
      E Ana, cuidado com a comparação com os outros. Você sempre vai encontrar gente mais inteligente e menos inteligente do que você. Isso pode gerar contentamento ou frustração, dependendo com quem você se compara.
      Mas se você mudar o seu foco e começar a comparar o seu estado atual com o que há de melhor em você, talvez aí haja crescimento e desenvolvimento pessoal. Que tal? 😉

  3. Dadinha disse:

    Olá Nina acabei de descobrir o seu blog e estou a ADORA!
    aA minha area de formaçao académica não é psicologia ( é direito) mas depois de nascer o meu filho em 2006 e na sequencia de uma busca de uma corrente educacional que mais se identifica-se comigo encontrei a parentalidade positivaa e a psicologia positiva e fiquei fascinada desde então que tenho aprofundado os meus conhecimentos e neste momento estou a escrever um “livro” para crianças sob a prespetiva da psicologia positiva. Eu estou aqui http://dadinhahistorias.blogspot.pt/ se tiver curiosidade pode visitar-me terei todo o gosto. Eu vou voltar ao seu blog.
    beijinhos
    Dadinha

    • Oi querida!! Adorei a visita e seu blog! Seja muito bem vinda!
      Também sou uma apaixonada pela psicologia positiva… acredito que é um paradigma relativamente novo na ciência que tem muito a contribuir para o conhecimento do funcionamento humano! 😉

  4. Olá Nina,

    Muito interessante esse texto! Me identifiquei bastante! Estou fazendo terapia cognitiva com a Dra Wladia Medeiros daqui de Fortaleza e foi ela que me recomendou acompanhar seu blog. Virei fã da terapia cognitiva desde que percebi as mudanças que ela provocou nos meus pensamentos. Sim, porque eu já entendi que não é a situação externa que te faz mudar, mas como você pensa sobre ela.

    O meu maior esquema é justamente o de incapacidade/depedência, rsrs, por isso o interesse no post. Mas estamos trabalhando na terapia para fortalecer o esquema funcional de capacidade/independência. Como paciente, garanto, tem funcionado e mto!

    Também mantenho um blog que fala sobre as minhas inquietações sobre a vida. Estou pensando em postar um texto como a terapia cognitiva tem me ajudado a superar tantos desafios na minha vida, qualquer coisa, apareça por lá e deixe seu recadinho, será muito bem vinda:

    http://abuscainterior.wordpress.com

    Forte abraço,
    Carol Domingues

    • Que legal, Carol! Seja bem vinda!
      O esquema de incapacidade é muito, muito comum, e muito desgastante… A gente nunca fica satisfeito com o que faz, tem dificuldade de reconhecer os próprios méritos e aí entra a dependência né? Mas fico feliz que você tenha se identificado com a TC e que esteja crescendo. Desenvolver-se como um ser humano melhor é a principal busca interior.
      Olharei com carinho seu blog! Parabéns pela iniciativa!
      Um grande abraço!

  5. Adilson Verbulez disse:

    Achei interessante a sua abordagem pois apesar de sentir que trabalho “bem” e entregar resultado, me sinto incompetente pois isso não gera resultados para mime eu acredito que contra fatos não há argumentos: se não há bons resultados é provável que está faltando habilidade em alguma coisa.

    • Oi Adilson, prazer!
      Quando um resultado não é bom, há de se verificar o máximo de variáveis possíveis que interferem no processo e, consequentemente, no produto final. Pode ser falta de habilidade? Sim.. O que mais? ALguma variável do ambiente? Outras pessoas envolvidas? Caso falte alguma habilidade pessoal, qual está faltando? Por que? Tenho recursos para desenvolve-la? Já deveria ter desenvolvido ou é algo que era fora do meu escopo?
      O “fato” é o resultado não positivo. Agora o que o ocasionou e o que isso significa, aí sim, podemos sim tecer vááários argumentos! 😉

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