@!$@#%$#ˆ@!#&!!

Acredito que o melhor signo que representa o sentimento da raiva, no âmbito da linguagem, é o palavrão.

Sinta a diferença emocional quando um interlocutor resmunga:

“que droga!”

versus

“puta.que.o.pariu!”

Talvez pela repressão desde os anos infantis, o palavrão possui uma carga “energética” tão forte que, uma vez expressado, funcionaria como uma mini catarse. Enquanto você silencia a raiva, parece que esse sentimento só cresce dentro de você, até que chega o momento onde você se permite quebrar uma regra, e quando solta um “putaqueopariucaralhoquemerdavaisefuderporra“, pronto! O alívio é instantâneo.

Mas, de onde vem essa raiva? Quando e por que ela surge?

Quando o motoqueiro te fecha no trânsito e ainda xinga sua mãe?

Quando o juiz que não marca aquele impedimento?

Ou quando você tira uma nota baixa na prova que você mais estudou?

Da bronca injusta que você recebeu do seu chefe?

Do atraso do seu colega?

Da lerdeza de um colega de trabalho?

Daquela garota que fica dando em cima do seu namorado?

Essas são situações típicas onde a maioria das pessoas se irrita. Mas não todas. E já vimos aqui e aqui o porquê: não reagimos emocionalmente em resposta ao que acontece conosco. Isso são simplesmente situações, e elas não tem tanto poder sobre a gente. Reagimos ao que pensamos daquela situação, a forma como nossa mente foi programada para responder àquilo.

Com a raiva não seria diferente.

Raiva é regra interna quebrada.

Regra interna = a lista do que é certo e errado de acordo com suas crenças. Suas vivências. Sua cultura. Seus pais. Seu tipo de escola. Suas expectativas. Seus valores. Seus medos.

É tudo aquilo que você pensa nos moldes de: “deveria ser assim” ou “não pode ser daquele jeito”.

E quando algo ou alguém (ou até você mesmo) quebra uma regra interna sua, você se irrita. Fica bravo, estressado, julga o outro – que obviamente está errado.

Mas… errado seguindo qual regra? A sua?

E qual é a regra dele? As crenças dele? As vivências dele? A cultura dele? Como foi a relação dele com os pais? A escola? Quais as expectativas e valores dele? E quais os medos dele?

Normalmente, quando nos colocamos no lugar do outro e tentamos buscar uma explicação mais plausível ao comportamento que até então nos incomodou, a raiva começa a diminuir. Você pode ficar apenas menos irritado, indiferente, ou , quem sabe, começar a sentir até mesmo compaixão.

Então temos duas estratégias para lidar com irritações constantes: a) descobrir qual é a sua regra interna que está sendo quebrada, e questionar porque essa regra é uma regra (da onde veio, porque TEM QUE ser assim, etc) e b) colocar-se no lugar do outro, questionando que motivos (plausíveis) poderia levar essa pessoa a agir daquela maneira.

E se nada disso funcionar, pergunte-se: ok, e o que de pior poderia acontecer?

E, na maioria das vezes, o pior é menos catastrófico do que imaginaríamos.

 

PS: E se nada disso funcionar, solte alguns palavrões, dos mais cabeludos! Isso sempre ajuda! 😉

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7 comentários sobre “@!$@#%$#ˆ@!#&!!

  1. Nina, lendo seu texto me vi claramente em situações de regras internas quebradas. É difícil eu me irritar, ficar com raiva, mas quando acontece é exatamente o que ocorre: não consigo entender porquê aconteceu, porque TINHA QUE SER de tal e tal jeito. Acontece que eu já andei descobrindo quais são minhas regras internas quebradas e já sei de onde elas vieram. Mas e aí? o que eu faço com isso? Só saber não resolve… qual seria o próximo passo agora?

    P.S.: Em terapia não cheguei a trabalhar com meus esquemas ainda.

  2. Oi Luciane! Bem, você pode a) tentar flexibilizar essa regra b) avaliar se de fato essa regra vale pra todo mundo c) tentar definir o que significa essa regra e porque você a mantem e d) o que significa para você enfrentar uma situação ou pessoa que não seguem a mesma regra que vc.
    Ajuda?
    Ah, e lembre-se dos palavrões, só pra diminuir a carga do negócio.

  3. Fernando disse:

    Nina! Sinto-me quase na obrigação de comentar, pois a raiva que sinto é justamente o que me faz fazer terapia. O fato é que quando procurei originalmente terapia, procurei por outros motivos. Acontece que alguns meses após começar minha terapia, me apaixonei pela minha psicóloga (os psicanalistas chamam isso de transferência). Continuei a terapia e alguns anos depois, passei a sentir raiva, ódio dela. Tive que trocar de terapeuta e meu principal assunto na terapia passou a ser a raiva que sinto da ex-psicóloga. Porém, mesmo fazendo terapia e já tendo passado mais de um ano, ainda sinto essa raiva. Minha maior decepção é pensar que procurei a terapia justamente para me sentir melhor, e acabei me sentindo pior ainda. Sentir essa raiva é muito ruim, pois me toma tempo, energia e alegria de viver. É como se me envenenasse por dentro. Poder viver sem sentir isso seria muito melhor.

    • Oi Fernando! Delicada essa situação. Independentemente de como vamos chamar isso (transferência, paixão, projeção, amor, amor platônico, etc etc), fato é que você manteve esse tipo de relação por muitos anos, e é mais que compreensível que isso tenha te machucado a ponto da cicatriz ainda estar viva, te trazendo toda essa raiva.

      A principal regra interna quebrada me parece ser a questão de que ela deveria te fazer sentir melhor, é isso?

      Bem, esse é um problema que tenho com as abordagens mais analíticas… Pela falta de objetividade e clareza do processo terapêutico e falta de estruturação, podemos cair numa situação nebulosa, e assim permanecer por anos…

      Mas o lado bom dessa história toda é que me parece que você já estabeleceu uma meta para você mesmo: viver sem essa raiva. Já tentou estabelecer, quem sabe em conjunto com sua nova terapeuta, estratégias para conseguir isso?

      Um abraço!

  4. Patricia Vale disse:

    Nina,
    Você como sempre mandando muito bem nos seus textos e esse caiu como uma luva para o momento. Estava conversando esse final de semana sobre isso com uma colega do curso de especialização. E é exatamente da forma como você disse que acontece. Porém fica sempre a dúvida, e nós como terapeutas cognitivos (seres humanos de carne, osso e coração) onde colocamos essa raiva no momento de falar exatamente sobre ela com nossos pacientes? Talvez engolir ou jogá-la pra fora por meio desses palavrões antes de entrar no consultório sejam boas soluções! rs
    Um beijo e uma excelente semana para você.
    Patricia

    • Hehehe… Olha, há muitos……errr digo, alguns anos atrás eu tive uma paciente que conseguia me irritar muito.
      Muito.
      Depois de duas sessões, onde até eu estranhava o porque de toda a minha irritação, o que eu fiz? O mais sensato e coerente a ser feito nessas horas: preenchi um diário de pensamento automático (eram vários) e fui desafiando.. um a um. Claro, e o mais importante: encontrando pensamentos alternativos e usando da técnica mais básica da empatia: colocando-me no lugar dela.

      Bem, não transcendi, não descobri xésus no meu coração ou virei buda, mas a raiva diminuiu significativamente, possibilitando um melhor planejamento e condução das sessões.

      Mas a paciente acabou desistindo do tratamento, de fato não era o que ela estava procurando.

      Aplicar em si mesmo as técnicas e compreender o que acontece conosco a luz do próprio modelo cognitivo é a melhor forma de compreender, aprender e se livrar dessa carga tão negativa.

      E claro, soltando uns palavrões aqui e ali para aliviar o clima! rsrsrs

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