Desabafo

Eu devo agradecer a Copa Libertadores desse ano por um grande, e talvez pesado, insight que tive na madrugada de ontem e que está me envolvendo até agora.

Como muitos paulistanos, creio eu, tive dificuldade em dormir cedo. Com uma certa frequencia eu acordava, assustada, com mais uma buzina, um grito (vaaai corinthiiiansss…………….ué, mas ele já não foi? caramba!) cortando a madrugada até então silenciosa da cidade.

E quando eu estava prestes a xingar mentalmente muito, mas muito, o cidadão (contribuindo com a poluição mental em que nos encontramos), eu parei e pensei:

– Quantas vezes eu mesma não buzinei, sem sequer me preocupar se estava em um bairro residencial, por pura raiva, indignação ou festa?

E eu me calei, pois em cada buzina, eu via um espelho.

***

Não satisfeita, ao ler minha timeline do facebook essa manhã, percebo alguns comentários extremamente agressivos criticando a agressividade alheia. Várias pessoas, assim como eu, inconformadas com o vandalismo que se seguiu pós jogo, incomodadas com piadinhas, acentuado a alienação dos “outros”. E antes de eu sair comentando empolgadamente e até de forma irritada concordando com o que estava sendo dito, eu parei e pensei..

– Como posso, com minha mente/coração cheios de raiva, criticar a agressividade de outrem? A partir do momento que me encho de raiva, em que aspecto me diferencio do “meu irmão”? Trago a semente daquilo que motiva brigas, vandalismos, guerras, bem aqui, no meu peito.

E me calei, pois a cada notícia de vidros estilhaçados, eu via um espelho.

***

Nesse momento, minha mente deu um salto imenso, além do tempo e espaço, e eu comecei a lembrar de vários amigos e de todos os meus julgamentos, e em cada um eu via um espelho.

A incoerência do outro, que tanto me incomodava, na verdade refletia minha incoerência, maior do que gostaria de admitir.

A falta de iniciativa do outro para se cuidar/melhorar, gritava minha inércia e meus momentos de apatia.

A falta de tato de um sublinhava meus próprios momentos rudes.

E comecei a compreender, a sentir, de forma mais visceral, o que  muitos sábios, filósofos, cientististas e ocultistas sempre disseram: o que está fora é o que está dentro.. e o que está dentro é igual o que está fora.

***

Se tem algo que a Terapia Cognitiva me ensina, a cada dia, é que tudo está na nossa mente.  E que essa simples frase tem camadas e camadas de interpretação, e eu me vi des-cobrindo mais uma forma de compreender a riqueza desse conceito.

Através de espelhos.

***

E como fica difícil, pesado, quase triste, julgar alguém, quando tudo o que você vê, de alguma forma, reflete você.

 

***

Portanto, agradeço a nação corinthiana por esse importante passo em direção a compreensão das minhas necessidades, dos meus reflexos e dessa forma compreender um pouco mais a mim mesma.

 

 

 

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5 comentários sobre “Desabafo

  1. Parabéns Nina! Tudo isso que você refletiu (dentro de si ou no seu espelho) mostra como ainda somos incapazes de olhar pra dentro de nós mesmos e perceber quão frágeis seres humanos ainda somos. Obrigada pela reflexão, me ajudou muito a alinhar meu pensamento às novas leituras que ando fazendo sobre Budismo.

    Grande Beijo!

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