Psicologia Positiva – A Ciência do Bem Estar

>>Esse é um post teórico. Será longo.<<

>>Pegue uma xícara de chá/café e boa sorte<<

Quando ouvimos o termo psicologia (ou psicólogos) o que geralmente vem à nossa mente?

Problemas, transtornos, conflitos, fraquezas, desespero, defeitos, etc etc etc.

Quando um estudante se depara com a matriz curricular do curso de psicologia, o que ele vê pela frente?

Psicopatologia, transtornos do desenvolvimento, avaliações psicodiagnósticas, transtornos de aprendizagem, teorias da personalidade (e, principalmente, os problemas decorrentes de determinadas personalidades) e, no final do curso, quando o 90%-psicólogo vai enfrentar os sabores e dissabores dos estágios, ele usará todas as técnicas psicoterápicas para…………avaliar e conceituar problemas e tentar orientar o paciente para a resolução dos mesmos.

(atenção: esse foi um super hiper resumo da carreira psicológica para dar uma ênfase maior ao fato de que estudamos problemas para lidar com problemas.. várias áreas de conhecimento e aplicação foram omitidos por uma questão de literatura bloguística)

A psicologia se firmou, durante toda sua história, como uma prática filosófica-científica voltada a compreensão, basicamente, das neuroses humanas. E esse objetivo ela conseguiu concluir com êxito: hoje temos teorias bem validadas sobre a maioria dos males que atingem a psiquê humana e com rotinas validadas empiricamente para tratar a maioria dos transtornos de humor e do comportamento humano. E isso é muito, muito bom, válido e importante.

Mas é só metade da história.

Usando uma metáfora retirada do livro do Martin Seligman, se numa escala que vai de -7 a a +7, por exemplo:

-7 ———– -3 ———0 ———-+3————+7

um bom profissional conseguirá conduzir um paciente que está em -7 para, quem sabe, -3 ou -2. Convenhamos que é uma melhora e tanto. Alguém com sofrimento em -7, apresentando ideação suicida e conflitos em várias áreas da vida, por exemplo, conseguirá reerguer sua rotina, seu humor e várias metas. Terá uma vida, sem dúvida, melhor, com menos sofrimento.

Mas.. uma vida -3 é uma vida boa? Satisfatória? Plena? Realizada? Este paciente estaria apreciando o que chamamos de felicidade autêntica?

Uma vida menos sofrida é uma vida boa? Ótima? Espetacular?

E aqui, amigos, descobrimos uma triste realidade: a psicologia científica quase nada sabe sobre o +7. E vou além: algumas perspectivas teóricas nem acreditam que isso é possível.

Mas, há cerca de 2 ou 3 décadas, Martin Seligman e outros pesquisadores começaram a colocar mais atenção sobre as forças e virtudes humanas. Sobre a possibilidade de princípios nobres que podem nos levar a experimentar o bem estar físico, psicológico e “espiritual” (entenda espiritual não com uma conotação religiosa, mas sim, como uma esfera que te conecta a um “todo maior”, seja esse todo maior a energia cósmica ou a teoria da seleção natural, as you wish).

Começaram estudando o otimismo e o pessimismo e suas repercussões na saúde humana (física e mental, não tem distinção). Fizeram uma extensa pesquisa étnico-cultural e acharam, nos mais diversos textos de tempos e culturas diferentes algumas virtudes relacionadas a felicidade humana que se repetiam em praticamente toda a amostra pesquisada.

Descobriram que uma atitude pessimista diante da vida é equivalente ao consumo de dois maços de cigarro e meio por dia no que se refere ao risco de problemas cardíacos.

Que pessoas otimistas tendem a cuidar mais da própria saúde e das pessoas que estão em sua volta, possuindo maior longevidade e qualidade de vida.

E através de uma extensa análise fatorial, as virtudes encontradas de forma quase ubíqua nas mais diversas culturas podem ser resumidas nessas seis:

  • Sabedoria e conhecimento
  • Coragem
  • Amor e humanidade
  • Justiça
  • Moderação
  • Espiritualidade e Transcendência

Cada uma dessas virtudes foi subdividida com a finalidade de classificação e medição, instrumentos fundamentais para transformar qualquer teoria em prática validada através da metodologia científica.

E definiram 24 forças pessoais relacionadas a essas seis virtudes.

E claro, criaram um teste para avaliar quais são as “forças mais fortes” em cada indivíduo. E o que fazer com o resultado. E como essas forças podem promover seu bem estar e trazer melhorias para os mais diversos âmbitos da sua vida.

Todo esse estudo resultou na criação de um programa que está sendo utilizado amplamente em vários segmentos nos EUA, tanto na clínica psicológica, nas escolas e, pasmem, no exército.

O que mais chamou a minha atenção nesse programa é o fato de propor uma mudança paradigmática radical para a psicologia enquanto ciência e profissão: a mudança do foco na doença e no alívio do sofrimento para uma abordagem voltada as forças e virtudes humanas.

Repito: não estamos dizendo que não é importante considerar /analisar/diagnosticar/tratar o sofrimento humano. Isso é importante. Mas está longe de ser suficiente.

Mas Nina, o humanismo de Maslow já não propunha isso? E toda a literatura sobre resiliência?

Sim, existe todo um movimento determinado ao estudo da Saúde Mental propriamente dita. O mérito da Psicologia Positiva é oferecer dados empíricos, através de uma metodologia científica intensa, extensa e disciplinada.

O que as recentes pesquisas estão mostrando é que o foco nas forças e virtudes humanas capacitam ainda mais o homem a encontrar ferramentas e a força necessária para florescer, para compreender e enfrentar os obstáculos inerentes a condição humana.

E é muito, mas muito mais divertido.

—————————————————-

Acabou? Você não vai falar para a gente qual o teste para descobrir nossas forças? Não vai falar sobre o programa implementado nos EUA? Nem sobre como obter mais informações sobre a Psicologia Positiva?

Claro.. mas como esse post virou uma novela, aguardem cenas dos próximos capítulos! =D

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19 comentários sobre “Psicologia Positiva – A Ciência do Bem Estar

  1. Ah nina, que bacana!
    Tenho aprendido muito com vc…pode parecer que nao mas, sim! rs
    Quando vcs escrevem eu ate sinto vontade de escrever mais e melhor e com menos medo…as vezes me pego pensando que bons exemplos tenho por ai…XD e que programa eh esse? rs
    Gostaria de fazer um pedidinho basico que venho tentando entender…realmente somos uma versao melhorado do macaco e nosso cerebro ja foi um dia igual ao deles…enfim se conseguir correlacionar psicologia e evolucao da mente , eu lerei com muito afinco! rs

    • Oi Jussara! O que está esperando para começar a escrever? Eu diria que a ordem é inversa.. primeiro você perde o medo, aí você começa a escrever mais e consequentemente, começa a escrever melhor. Sei bem como é esse medo, muitas vezes eu também travo diante de um assunto complexo. Como por exemplo esse que você me pediu! Vou reler algumas anotações que fazia quando participava de um grupo de estudos sobre Filosofia da Mente para poder contribuir de forma mais adequada. Não prometo o texto para já, mas está na lista! 😉
      E obrigada pela visita! Adorei!

  2. Marcos Mizael disse:

    Gostei de seu texto. Como resolver problemas, se apenas estudamos como são os problemas? Como encontrar um caminho de saúde nas práticas médicas (também) e psicoterápicas se só percorremos o caminho das doenças nos estudos universitários?
    Só gostaria de ressaltar um ponto importante: a Psicologia como ciência nunca foi ou está unificada, ela ainda possui uma fragmentação séria de diferentes teorias e bases epistemológicas, que me fazem pensar o seguinte: é difícil dizer que a Psicologia “conseguiu concluir com êxito” a compreensão das neuroses humanas, e que “hoje temos teorias bem validadas sobre a maioria dos males que atingem a psiquê humana com rotinas validadas empiricamente para tratar a maioria dos transtornos…” Isso é bem questionável, pois não há consenso científico universal dentro das ciências psicológicas. Talvez essa frase funcione dentro de uma teoria particular dentro da Psicologia, mas não pode envolvê-la como um todo. Psicanálise, Cognitivo-comportamental, Humanismo (citando apenas 3), diferentes bases formam cada uma, e que não se adequam no entendimento exposto por você acima. Concluir com êxito a compreensão das neuroses humanas? Mas elas não estão percorrendo um caminho contínuo dentro das mudanças sociais e psicológicas inerentes ao tempo percorrido e à evolução humana? E também, não é porque temos um glossário de doenças psicopatológicas e uma lista de tipos diferentes de terapia para cada, que podemos afirmar que isso terminou ou que temos tudo o que existe ou pode existir em relação ao tratamento na saúde mental. Vejo mais incompletude do que propriamente uma teoria acabada sobre as neuroses. E mais uma questão, sobre as “teorias bem validadas” e “rotinas validadas empiricamente”, recai no que disse anteriormente, o que é válido psicanaliticamente não o é para a teoria cognitivo-comportamental e vice-versa. Esta parte está bem difícil de entender dentro da Psicologia, pois não funciona como na Matemática, onde o que está provado serve para qualquer matemático compreender. Ainda hoje, e isso é o que eu mais me interesso em pesquisar, a Psicologia não é uma, mas são várias facetas de entendimento do difícil objeto de estudo: alguns chamam comportamento, outros chamam inconsciente, outros chamam cérebro, mas nenhuma teoria se confirma como a teoria definitiva sobre o que é a complexidade do ser humano e como estudá-lo dentro de um modelo que não apresente discrepâncias e discordâncias.
    Um grande abraço,
    Marcos Mizael. Psicólogo Clínico.

    • Olá Marcos, seja bem vindo!
      Concordo com a maioria dos pontos que você trouxe para a discussão, enriquecendo-a. A questão da diversidade da psicologia é algo que eu costumo não abordar muito nesse blog por uma opção bem pessoal: é um espaço de uma terapeuta cognitiva expor ideias, conceitos e dicas para um público amplo. Discussões epistemológicas sobre a constituição da própria psicologia já é um terreno arenoso para os profissionais da área, quiçá para os “leigos”. Mas os pontos que você levantou merecem algumas considerações relevantes:
      a)no que se refere aos glossários e protocolos de atendimento em psicologia, em momento algum eu quis passar a ideia de que “podemos afirmar que isso terminou ou que temos tudo o que existe ou pode existir em relação ao tratamento na saúde mental”. Apenas afirmei que para a maioria dos transtornos psicológicos há sim uma descrição e metodologias avaliativas e terapêuticas eficazes. Se passei a ideia de totalidade ou de encerramento do problema, foi então um erro de uma escritora amadora, rsrs. Todo o objeto de estudo da psicologia é dinâmico, o que implica em constantes mudanças e releituras. Mas temos que tomar o cuidado para não cair em um relativismo absoluto acreditando que tudo é instável, nada é, não existem padrões, logo, não poderia haver ciência nem classificações (estou indo para o extremo oposto).
      b) consenso científico universal é algo que não existe na psicologia e em nenhuma ciência. Então seria muita ingenuidade defender essa ideia, que é por si só antagônica com a própria ideia do que vem a ser ciência.
      c) se a terapia cognitiva comportamental demonstra, em uma centena de estudos, protocolos de tratamento eficazes para um grande número de transtornos e sendo essa abordagem uma abordagem psicológica, eu não posso afirmar que a psicologia tem sim tratamentos eficazes? “ah, mas não é tooooda a psicologia”. Não, não é. Mas é uma parte dela. A que mais se preocupa com validação empírica. Se uma parte da psicologia tem mérito X, eu posso dizer que a psicologia tem mérito x. Isso não significa dizer que essa (ou qualquer outra) perspectiva encerra o assunto, ou define completamente o objeto de estudo da psicologia. É apenas uma dimensão. Que tem muitos avanços, e como toda área científica que se preze, várias lacunas.
      E são exatamente essas lacunas que permitem essa dinâmica inerente a psicologia, seu objeto de estudo, e essas ricas discussões. 🙂

  3. Marcus Vinícius (Joker) disse:

    Não sou psicólogo, mas logo começarei meu primeiro semestre.
    Adorei os textos e os comentários.
    Agradeço o bom desempenho aos leitores.
    Continue escrevendo, continuarei lendo!
    Um abraço,
    Marcus Vinícius.

    • Olá calouro!! Seja muito bem vindo! E sinta-se a vontade para fazer questionamentos, críticas e sugestões, principalmente quando você começar a ter suas aulas propriamente ditas. Boa sorte na empreitada, a profissão que você escolheu é maravilhosa!! (sim, esse foi um comentário bem tendencioso, rsrs)

  4. Tiago disse:

    Penso que a própria aceitação na mudança de paradigmas (tanto do psicólogo em relação a sua atuação, quanto ao cliente em relação a sua própria vida) já aumenta +1 ou +2 pontinhos naquela escala de bem-estar! hehe.. Conheço pouco da Psicologia Positiva em relação ao método científico de atuação do Psicólogo, mas estou com um livro aqui em casa do dr. Martin Seligman (florescer), que apesar de contar uma linguagem acessível ao grande público leigo, possui (segundo a leitura do sumário) diversas contribuições para iniciar uma futura leitura mais densa deste pensamento. Esses dias vi inclusive o Marco Callegaro dando uma entrevista na Globo em um congresso sobre Psicologia Positiva! Nem sabia que ele era um entusiasta. Abraços, Tiago (Psicólogo, Balneário Camboriú).

    • Oi Tiago! Eu também estava nesse congresso, vi o Marco e tive a honra e o prazer de assistir duas conferências com o Martin Seligman ao vivo e a cores. Foi muito bom, superou as minhas expectativas!

      Haviam várias palestrantes, e todos eles se pautaram muito na questão científica, mas de uma forma abrangente, e não estéril, como muitas vezes a academia acaba se tornando.

      O Florescer é o último livro que o Seligman publicou. Ele faz várias críticas ao seu livro anterior, o felicidade autêntica, mostrando como sua teoria “evoluiu”. Mesmo assim, ainda recomendo a leitura desse livro (Felicidade Autêntica) pois dá uma ideia mais abrangente de como tudo começou e da profundidade epistemológica da proposta do autor.

      Espero que você goste da leitura do mesmo.

      Um abraço!

  5. Maria Eduarda disse:

    “Acabou? Você não vai falar para a gente qual o teste para descobrir nossas forças? Não vai falar sobre o programa implementado nos EUA? Nem sobre como obter mais informações sobre a Psicologia Positiva?”

    Vou esperar, Nina. Estou adorando os novos textos de 2012!

    Fiquei com uma dúvida. Pela nova teoria, deveríamos focar nas nossas forças e virtudes e não na doença. Ok, mas de onde vem essa força e virtude? Genética, meio social, livre arbítrio? E se não sou possuidor de coragem, força, como faço para superar?

    • Olá Maria Eduarda!

      Na sua própria pergunta já vem parte da resposta. Os pesquisadores dessa área acharam um componente genético forte na definição de um “campo” de forças e manifestação de emoções positivas. O meio social também tem seu papel nessa definição. Porém, quando o foco são as forças das virtudes humanas, é possível afirmar que você possui todas. Porém, algumas são mais características, mais fortes em você. Isso significa que atividades que envolvem aquela determinada força “fluirá” de forma mais natural, mais fácil, e você se sentirá melhor também.

      Mas já estou adiantando o próximo post, que será sobre o teste para avaliar as suas forças! 😉

  6. Franciane FRonza disse:

    Olá NIna!

    De certa forma, os outros leitores já levantaram pontos de discussão que me surgiram ao ler seu post. Bem, como estudante de psicologia, intento conhecer o humano, e a complexidade de seu comportamento, as razões que o fazem ser o que é e de agir como age. Desta forma, interessei-me muito pelo assunto de sua postagem e dos questionamentos ali levantados. Como você afirma: O mérito da Psicologia Positiva é oferecer dados empíricos, através de uma metodologia científica intensa, extensa e disciplinada. Portanto, vale salientar o estudo da resiliência (assunto um tanto desconhecido) e de tantas outras teorias que buscam oferecer às pessoas a felicidade plena. Exatamente por isto, lhe pergunto: O que seria uma vida +7? É possível alcançá-la? E se possível for, será que os indivíduos que lá chegarem não desejarão mais nada? Estarão, por assim dizer, plenamente satisfeitos? ou continuarão a olhar a “grama do vizinho” e achá-la mais verde? E como a psicologia pode contribuir para a felicidade destes indivíduos, os ditos eternamente insatisfeitos?

    Cordialmente:
    Franciane Fronza.

    Abraços!

    • Olá Franciane, seja bem vinda!

      Uma vida +7 está relacionada com o que o autor, em um primeiro momento, chama de Felicidade Autêntica e num segundo momento abrange seu conceito com a ideia de “Bem Estar”.

      Esse bem estar, como dito, está relacionado com a manifestação de seis virtudes: sabedoria e conhecimento, amor e humanidade, justiça, moderação, espiritualidade e transcendência. E o que desejariam as pessoas que conseguissem manifestar todas essas virtudes? Talvez continuar manifestando-as? A repercussão prática dessas virtudes é muito grande, e envolve outras pessoas.

      Além dessas virtudes, a teoria do Bem Estar envolve cinco aspectos centrais (o que ele vai chamar de PERMA): emoções positivas, engajamento, relacionamentos positivos, sentido/significado e realização.

      Falta ainda alguns posts para complementar a perspectiva geral da Psicologia Positiva, e talvez algumas questões fiquem mais claras. 😉

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