TDAH ou Pais Sem Limites?

Continuando a linha dos transtornos que estão na moda, na modalidade infanto-juvenil entra na passarela o famoso e tão temido TDAH: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Crianças agitadas, cheias de energia, com dificuldade em obedecer regras e ficarem quietas: o que outrora era a definição comum de uma criança, virou transtorno, doença e, sendo algo patológico, precisa -obviamente – de medicação. Ritalina nelas! Lembrando da Lei Sagrada Universal que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um transtorno psicofisiológico, ou seja, é uma forma alterada de funcionamento fisiológico cerebral que afeta questões cognitivas, como concentração e controle dos impulsos, e não “somente” uma falta de disciplina e comportamentos baseados em regras.

Nas crianças e adultos com TDAH há uma hipomodulação dopaminérgica no pré-frontal. Em português claro: na parte da frente do cérebro, há uma redução de elementos químicos que ajudam essa parte do cérebro a funcionar direitinho.

E quais as funções dessa parte do cérebro? Capacidade de sustentar a atenção e concentração, habilidade de fazer planejamentos, de prever as consequências dos próprios atos e controle dos impulsos. Além disso, a habilidade de associar informações mais “racionais” com informações mais “emocionais” também está fortemente vinculada a essa área cerebral.

Se meu cérebro não está funcionando lá muito bem no que se refere às habilidades acima descritas, isso significa que vou apresentar essas dificuldades em casa, na escola, nas brincadeiras e jogos, no trabalho e nos relacionamentos afetivos. E isso explica um dos critérios diagnósticos do TDAH: é necessário que a pessoa apresente os sintomas em no mínimo dois ambientes, como por ex: casa e escola. Se ele apresenta os sintomas só em casa ou só na escola, esqueça TDAH, o problema será outro. E que outro?

Pode ser ansiedade. Depressão. Indisciplina (dificuldade em lidar com regras). Pode ser alguma dificuldade cognitiva, como dislexia, atrasos no desenvolvimento (motor, psíquico, intelectual). E aqui entramos em outro critério diagnóstico do TDAH: é necessário excluir qualquer outro tipo de transtorno mental para ter TDAH, afinal, uma coisa é uma coisa…………..

Além dos pontos acima mencionados, é preciso comentar a falta de limites dos próprios pais, que preferem servir os filhos a educá-los. E os professores que preferem gritar a desenvolver estratégias de disciplina pautadas no respeito e carinho mútuos.

Então, antes de afirmar que metade dos seus alunos tem TDAH, ou de levar seu filho no psiquiatra mais caro da cidade, reveja se o problema está na disciplina (ou falta de), na motivação da criança para fazer as tarefas e como você ajuda (ou não) a construir hábitos saudáveis na própria casa/sala de aula.

Se a família é desorganizada, se os pais não se respeitam e não cumprem o que prometem, se não há horários definidos para as refeições, atividades domésticas e sono, se o diálogo é restrito e a participação é ausente ou demasiada autoritária, o filho encontrará dificuldades em organizar seus pensamentos, suas emoções e seu comportamento. Tadan! Se tornará indisciplinado na escola. E é nesse momento que ele é indicado para um terapeuta: quando começa a incomodar alguém.

Lembre-se: nenhum profissional sozinho diagnostica TDAH: é importante a avaliação de um psiquiatra (de preferência infantil), um psicólogo e o professor ou orientador pedagógico da escola, além de uma boa entrevista com os pais. A partir do momento que o diagnóstico é feito, deve ser iniciado o processo psicoterapêutico  para aprender a lidar com os sintomas e descobrir que é possível sim viver bem e otimizar os aspectos positivos do transtorno, minimizando e contornando as dificuldades inerentes. É um novo aprendizado, que envolve não apenas a criança, mas a família e a escola.

Afinal, essa criança não está se formando sozinha, isolada. Cabe a nós oferecer as ferramentas e instruí-la da melhor maneira possível para que a mesma consiga materializar o que até então é puro potencial criativo. E ser, assim, genial. 😉

Anúncios

3 comentários sobre “TDAH ou Pais Sem Limites?

  1. Nina, eu adorei esse seu post.
    Lição de casa: Uma coisa é uma coisa e outra coisa é OUTRA coisa.
    Fundamental que a analise seja feita em conjunto com a família, escola e outro profissional.
    Eu li isso: ” É irônico, aliás, que, depois de alguns séculos de modernidade( de dois a cinco, segundo a data que a gente escolha para começar a contar), sejamos reduzidos a delegar à química a tarefa de disciplinar o desejo.”
    O texto se referia a adultos, mas nos dias de hoje, as crianças já são submetidas ingestão de substancias químicas, por vezes de maneira irresponsável.
    É sempre muito bom quando nos deparamos com pessoas com lucidez.
    beijos

  2. Ótima Reflexão, Gueixa. As pessoas, em geral, buscam em soluções rápidas e externas formas de se tornarem mais humanas, dignas, felizes e tranquilas. Disciplina, motivação, determinalção, coragem e prazer são delegados às pílulas mágias ou ao dinheiro farto, e de preferência, fácil.

    Adultos que não amadureceram acabam criando eternos bebês, incapazes de lidar com a frustração, desistindo fácil e não criando os ideias e aquela energia revolucionária típica do adolescente.

    E acabam se dopando através de remédios, televisão e revistas capricho.

    E a isso colocam a culpa do coitado do transtorno….

  3. Lia de Paula Moraes disse:

    O livro infantil JOÃO AGITADÃO da editora Caravansarai é uma leitura divertida para as crianças e contribui para elevar a autoestima das
    portadoras de TDAH.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s