Do normal ao patológico

O que é ser normal?

Geralmente pensamos em termos estatísticos: aquilo que é mais frequente. A média. Porém, vamos ainda mais além: entendemos normalidade como algo saudável. Algo “bom”, que deve ser inclusive reforçado. Ser diferente é compreendido como algo perjorativo, complicado, às vezes patológico.

Será?

A violência em centros urbanos é cada vez mais frequente. Transtornos de ansiedade e depressão estão ganhando proporções epidêmicas. Está cada vez mais normal ter uma vida sofrida, um trabalho frustrante, um casamento falido e uma vida sexual não satisfatória.

E o contrário? Será que o que não é normal é necessariamente ruim? Uma criança superdotada não é “normal”. Seria sua inteligência acima da média algo patológico?

E quando entramos no âmbito dos sentimentos e comportamentos humanos? Como definir o que é ou não é normal?

Uma pergunta ainda mais delicada: com que finalidade devemos fazer tal distinção?

Sugiro focarmos então no conceito de patologia, pois esse conceito poderá nos auxiliar na elaboração de diagnósticos, prognósticos e tratamentos mais eficazes.

O principal eixo de uma definição de psicopatologia consiste em sofrimento e prejuízos funcionais. Ou seja, o indivíduo apresenta sofrimento psíquico somado a problemas/bloqueios em determinadas áreas da sua vida (ocupacional, pessoal, afetiva, saúde, etc).

Tais dificuldades devem ser analisadas de forma contextual e cultural. É comum esperarmos um sofrimento e déficits comportamentais em situações de luto, por exemplo. Mas se essa condição se estende por mais de seis meses, é melhor ficarmos atentos.

O mesmo vale para conceitos como Depressão e Transtornos de Ansiedade, por ex. Todos nós sentimos tristeza, angústia, raiva e medo. O que caracteriza um transtorno?

A dificuldade do sujeito de lidar sozinho com seus próprios pensamentos e sentimentos. A frequência e intensidade dos mesmos. Sua eficácia em conduzir suas metas nas mais diversas áreas de sua vida. A qualidade dos seus relacionamentos pessoais e afetivos. O conjunto de tais fatores é que dirão se temos ou não algum problema mais sério.

A boa notícia é que para a maioria dos transtornos de humor já há evidências de tratamentos eficazes. Sim, é possível sair desse círculo vicioso e conquistar a tal da felicidade.

Ela existe. Só precisamos aprender a reconhecê-la. E a partir daí, alimentá-la, diariamente, como fazemos com nossos corpos.

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11 comentários sobre “Do normal ao patológico

  1. Luciane disse:

    Hoje, de tanto vermos as diversidades de costumes, de comportamento e de modo de ser das pessoas, o diferente já éstá sendo visto como algo “normal”. Essa discussão daria muito pano pra manga. No entanto, percebo que o normal [enquanto um conceito de algo que não traga sofrimento, nem seja disfuncional para o sujeito] já é por si só, diferente! Diferente no sentido de: “os normais, as pessoas não patológicas, são raridade no planeta”. Dificil hoje encontrar quem não vive o estresse diária, quem está livre da ansiedade, quem é adaptado COMPLETAMENTE.

    • Luciane,
      não sei se há pessoas adaptadas completamente, nem mesmo completamente não adaptadas. E o próprio conceito de adaptação é um tanto quanto contextual. De qualquer forma, como bem dissestes, essa é uma discussão que não se encerra aqui, talvez só se inicia.

  2. Oi Nina,
    Que bacana que vc criou esse blog. Qqer semelhança com o layout do meu seria mera coincidência? rs.
    Não sabia que vc era da área da saúde mental. Não entendo muito, mas simpatizo. Eu mesmo sou ‘analisando’ há +- 7 anos.
    Com sua permissão, gostaria de linkar seu blog no meu. bjos

    • Olá Sérgio! O mesmo layout foi coincidência mesmo. Talvez ambos tenhamos o mesmo bom gosto! Rsrs. Uol! Sete anos em análise? Isso merece um post sobre a diferença entre as abordagens… eu parto da premissa de algo mais objetivo = curto prazo. Mas cada abordagem trabalha de formas completamente diferentes o ideia de tempo, cura e tratamento. Adorei teres linkado meu blog, obrigada! Vou me disciplinar mais e ler suas poesias, me identifico com sua linguagem, estás de parabéns. =)

  3. Sandra disse:

    Tá aí… a nível de pesquisa realmente é mais fácil encontrar a amostra patológica do que a controle (saudável). No desenho experimental, qnd busco eliminar sujeitos que façam uso de determinadas medicações, histórico de psicopatologias, etc etc, percebo que busco “uma agulha no palheiro”! Bom, enquanto a analogia não for modificada por “buscar pelo em ovo” ainda resta uma esperança!

      • Sandra disse:

        Na verdade tentamos eliminar ao máximo variáveis que possam interferir em funçõe tais como memória, linguagem, funções executivas, etc. Não se trata necessariamente de uma população ”saudável”, e sim controle mesmo… Agora, o conceito de saúde mental que está por trás disso não sei te dizer.. Aceito sugestões. Rs.

  4. Legal o texto Nina, gostei. Acho interessante a construção do conceito de normalidade, em termos estatísticos. Acho que o problema maior recai em confundir o normal (comumente denominado o que está 1.96 DP acima ou abaixo da média) com o “saudável” ou mesmo “não-patológico”. Não podemos esquecer que existem doenças coletivas, e que muitas vezes a curva normal serve para caracterizar uma população ou grupo, mas não serve para dizer o que é ou não saudável ou bom. Na verdade, temos “detectores” de normalidade para tudo, por exemplo, sabemos mais ou menos a média de peso/altura da nossa população e identificamos rapidamente quando alguém é “um ponto fora da curva”. Mas é claro, a nossa referência é a nossa própria cultura… então acostumamos a aceitar comportamentos patológicos desde que estejam dentro daquilo que é praticado pela maioria das pessoas no nosso contexto, aceitamos pequenos desvios, normalmente abaixo da curva “normal”. Legal, adoro essa discussão!!!

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